A Queda do Altar do Eu
Já vimos este enredo se
desenrolar inúmeras vezes ao longo da história humana: a ascensão e a queda daqueles que, imbuídos de uma crença hiperbólica na autossuficiência,
decidiram destronar a esperança no poder transcendente de Deus. O que
assistimos hoje é a reedição desse drama. Uma parcela da sociedade, seduzida
pelo brilho das conquistas materiais e
intelectuais, substituiu a fé e a humildade por um altar dedicado ao "poder meditativo das suas
realizações".
Essa aposta no poder exclusivo do self
não é apenas uma mudança de crença; é um desmantelamento ético e social. Quando a narrativa dominante é a
da autonomia absoluta, virtudes
como a boa conduta, o respeito mútuo e
a ética tornam-se obstáculos. Pior, sentimentos que cimentam a
convivência humana, a empatia, a
solidariedade e a compaixão são depreciados, rotulados pejorativamente
como sinais de fraqueza ou ingenuidade
emocional.
O que resta é o "homem natural" em sua forma mais desorientada. Essa criatura iludida esqueceu a sua origem finita e a sua essência paradoxalmente
frágil. Ela se lança em uma frenética e incessante acumulação: colecionando títulos, amealhando fortunas e
erguendo monumentos gigantescos. Sejam eles empresas, patrimónios ou
legados académicos. Contudo, essa ostentação material é tragicamente incapaz de
preencher o vazio existencial que
reverbera no peito.
Sem a âncora de um propósito maior ou a
bússola de valores transcendentes, vertido na Glória do poder de Deus, essa
jornada se revela uma miragem: uma vida sem
paz autêntica e sem direção intrínseca, condenada a buscar satisfação em
substitutos que, por definição, são finitos e insatisfatórios. A história nos
ensina, e a contemporaneidade reitera, que a verdadeira plenitude reside na humildade
de reconhecer a nossa dependência e no abraço das virtudes que nos conectam uns
aos outros e a algo além de nós mesmos.













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